Geração Ilusão

19.9.11
Nós que não comemos carne nem peixe, mas vestimos roupas de couro e usamos cosméticos testados em animais.
Nós que não suportamos as bebedeiras dos outros, mas vivemos da diversão inalada.
Nós que não temos dinheiro para mandar cantar um cego, mas não falhamos uma festa in todos os fins-de-semana.
Nós que pensamos que vamos ficar para sempre estancados antes dos 30, mas queremos ter o carro e a riqueza dos que têm 50.
Nós que somos mestres e doutorados, e passamos a vida a fingir que trabalhamos.
Nós que clamamos generosidade, mas só conseguimos olhar para o nosso umbigo.
Nós que nos queixamos de não usufruirmos de sol e ar puro durante a semana, mas preferimos gastar os dias livres em sítios esfumarados entre 4 paredes.
Nós que procuramos o amor em cada esquina, mas que só conseguimos enxergar e viver de aparências.
Nós que nos dizemos tão roots, e que nunca soubemos sentir e enterrar as unhas na terra.
Nós que em vez de olhar em frente, ficamos agarrados às ilusões de adolescentes e ao corpinho dos 16.
Nós que não comemos junk food jamais, mas nem um ovo sabemos estrelar.
Nós que idealizamos uma casa a esbanjar design, mas continuamos a pagar a renda de um quarto com o sustento dos papás.
Nós que fazemos reciclagem minuciosamamente, mas enchemos a banheira para relaxantes banhos de imersão.
Nós que criticamos os governos, mas que nunca fomos votar porque estávamos de ressaca.
Nós que compramos todos as edições da Time Out, mas nem um livro por ano conseguimos ler.
Nós que damos o look ao manifesto em revoluções de deolindos, mas não nos acanhamos de gastar 150 euros num bilhete de festival.
Nós que nos fartamos de errar, mas somos incapazes de perdoar.
Nós que não nos entregamos a uma relação cheia de tudo, mas preferimos várias relações cheias de nada.
Nós que adoramos crianças, mas que jamais teríamos uma, não vá o corpinho de sereia deformar-se e a 'liberdade' findar.
Nós que pensamos que vamos ser super teen para sempre, e que as responsabilidades ainda têm que esgravatar muito até chegarem a nós.
Nós que insistimos em esquecer que, mais cedo ou mais tarde, todas as peles de seda se enrugarão, um mapa sinuoso de curvas e contra-curvas se alastrará nos nossos rostos, sem distinguir o creme Vichy do Lancôme... e que o tempo tomará conta de nós sem dó nem piedade.

Nós que vivemos na mais profunda ilusão...e que quando acordarmos, poderá ser tarde demais.

Nós que vamos fingir que nunca lemos o que acabei de escrever e que nada disto aconteceu.

2 comentários:

  1. Ola, posso levar este teu texto que diz tanto do que penso? Prometo colocar referencias ao teu blog!
    :)

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  2. Claro que sim Andreia!
    E já agora..qual é o teu blogue? :)
    Obrigada

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